O Globo

 
 
 

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20 de Julho de 2013

Um Rio traduzido em Arte

A americana Sarah Morris exibe em Londres telas e filme que fez sob inspiração de personagens e paisagens cariocas

Vivian Oswald

O Rio de Janeiro pode ter muitas faces. E cada uma delas depende da lente do espectador. Na exposição “Bye Bye Brazil”, que acaba de ser inaugurada na galeria White Cube Bermondsey, em Londres, a artista americana Sarah Morris apresenta a sua, construída depois de anos de observação e mais de 50 horas de filmagens pela cidade. A síntese está em 12 telas abstratas e no filme “Rio”, de 89 minutos, que a artista mostra pela primeira vez ao grande público e que deve exibir em solo carioca, no mês de Setembro em local ainda a ser definido.

Sarah captou a cidade a partir de imagens certamente emblemáticas para os brasileiros, mas provavelmente ignoradas pelos forasteiros. Tudo parece se encaixar. Até os 35 graus do lado de fora da galeria, em uma das mais longas ondas de calor que assolaram a capital britânica recentemente.

– Mas não estou tentando criar a verdade. É apenas minha versão. É fantasia, e não um documentário. É ficção – diz.

Durante duas semanas e meia, em 2011, a artista percorreu o Rio desde o cafezinho no botequim, com vitrine de pasteis e pão de queijo, até os petroleiros que cruzam a Baía de Guanabara, passando pelas entranhas de fábricas de cerveja e lingerie, até desembarcar no desfile das campeãs na Sapucaí. Todos os estereótipos estão no filme. Mas acabam se perdendo dentro dos retratos, que vão se sucedendo no ritmo das batidas de Liam Gillick, compositor da trilha sonora do filme. A maior festa do Brasil é explorada pelos bastidores, com imagens quase obscuras, contrastando com as imensas proporções do espetáculo.

– Não é só a ideia de William Blake de binarismo, o micro e o macro, o rápido e o lento, o dia e noite, a celebração e a escuridão. Tudo segue o curso, como se fosse o curso da água, são várias experiências e não há uma dominante.

Sarah garante que as contradições estão todas ali. Antes do Rio, ela capturou imagens a que ninguém mais teve acesso dos preparativos para as Olimpíadas de Pequim, do tapete vermelho de Los Angeles, da Casa Branca de Bill Clinton, enquanto ele ainda a ocupava. O trabalho sobre o Rio é a continuação das investigações que ela iniciou sobre interfaces psicológicas urbanas. A formação em semiótica e filosofia política se encarrega de ajudá-la a decodificar para, depois, reconstruir, como ela própria gosta de descrever.

ENTREVISTA INÉDITA DE OSCAR NIEMEYER

O efeito das enormes telas, que se espalham pelas paredes de pé direito duplo do salão principal da galeria, potencializa-se pelo reflexo das suas cores no piso de concreto. O ambiente iluminado por uma imensa claraboia torna-se uma espécie de antessala do espaço escuro onde um telão reproduz o filme “Rio” ininterruptamente.

Os quadros receberam da artista nomes mais do que conhecidos pelos brasileiros, como “Sambódromo da Marquês de Sapucaí” e “Globo”. Em geral, ela gosta de usar referências, como pessoas ou lugares que considere relevantes para a formação da cidade, numa espécie de síntese do que pretende descrever.

– É uma pilha de coisas. O que vejo da cidade, o que estou querendo dizer como artista, o que estou querendo dizer sobre a arte. Os meus títulos sempre se referem ao passado ou a estruturas existentes que sejam importantes – destaca.

A opção pelo Brasil se justifica não só pelo momento político e econômico que vive o país, e sua consequente projeção no contexto global, mas também pelas relações de amizade que ela construiu com brasileiros ao longo dos anos. O ponto de partida desse projeto ambicioso, que lhe rendeu o mais longo da série de 11 filmes que produziu, foi o documentário inacabado “It’s all true” (1942), em que Orson Welles registrou, entre outras, imagens do carnaval do Rio.

– Gosto da ideia de terminar o que ele começou – ela diz.

O filme de Sarah traz outra novidade: uma entrevista inédita de Oscar Niemeyer, no escritório dele, com foco no mobiliário, na imagem de Vladimir Lenin, na cadeira de rodas do arquiteto. Já debilitado, “seus olhos não acompanhavam o pensamento”, segundo Sarah, ele foi capaz de surpreendê-la com análise breve, porém precisa, da artista que havia conhecido naquele momento.

– Ele virou-se para mim e disse: “Eu sei que você gosta de trabalhar muito. Você é muito intensa.” Depois, me pediu que deixasse meus livros no escritório, pois queria estuda-los. E isso foi o que mais me impressionou nele: sua abertura. Você precisa ter muita autoconfiança para ser assim.

As tantas contradições que ela diz ter identificado no Brasil, observadas a partir de um longo relacionamento – a primeira vez que esteve no país foi em 1995 -, certamente ajudaram a artista compreender melhor os protestos que levaram milhões de pessoas às ruas durante semanas.

– Uma parte de mim se surpreendeu, mas a outra, não. É difícil engolir certas coisas. Minha surpresa não é com o fato de as pessoas ficarem com raiva, mas com o conhecimento de que tudo estava acontecendo e pode ser tornar público. As fronteiras podem ser ultrapassadas. É sair da inércia do dia a dia. E é sempre interessante ver isso acontecer, porque acontece em um segundo. As coisas coagulam, como o sangue mesmo – completa.

Para Sarah, as formas da arte no Brasil são muito impressionantes, e isso ela atribui a uma espécie de mentalidade desafiadora do país, tanto do ponto de vista político quanto ideológico. A ideia de futuro no Brasil é muito forte, ela diz.

Quase que simultaneamente, a artista filma e preenche as telas com as informações que vai recolhendo. Os filmes, segundo ela, são apenas uma desculpa para viajar, conhecer pessoas e investigar.

– Posso ser duas artistas, mas sou uma só. Penso sempre na frente para ver o que me espera… Além das filmagens e das pinturas, há um grande trabalho de pesquisar, dar centenas de telefonemas, investigar – reflete.

“ Não estou tentando criar a verdade. É apenas minha versão. É fantasia, e não um documentário”

“ Além das filmagens e das pinturas, há um grande trabalho de dar telefonemas, investigar”