O Globo


 
 
 

O Globo

12 de Março de 2011

Um Rio visceral

Depois de filmar cidades como Washington, Los Angeles e Pequim, a artista plástica americana Sarah Morris explora contrastes cariocas.

Suzana Velasco

Sarah Morris é uma artista plástica engajada com o pensamento. Tem um discurso sobre sua obra e pode falar de um fôlego só sobre ela, as representações do poder, a estrutura do mundo do espetáculo, o significado da pintura. Mas o Rio, ela diz não a atraiu mentalmente. A americana nascida em Kent, na Inglaterra, usa a palavra visceral para definir sua experiência na cidade há 16 anos. E acredita que ecos daquele mês que passou longe de Nova York, “planejando o futuro”, estarão nas imagens que ela, de volta ao Rio, começou a filmar anteontem – depois de já ter registrado Miami, Washington, Las Vegas, Los Angeles e Pequim em filmes exibidos em galerias e museus, e não feitos para o cinema. Não será um filme sobre a cidade, mas conduzido pela visualidade carioca. O Rio de Sarah tem samba, Copacabana, favelas e baile funk, mas também a fábrica da Brahma, a sede da Petrobrás, a produção de lingerie, o Hotel Nacional abandonado. As primeiras cenas que Sarah e sua equipe filmaram foram militares fazendo exercícios no amanhecer na Urca. Hoje à noite, eles estarão no desfile das escolas de samba campeãs, no Sambódromo.

– É o melhor momento para estar aqui, porque a cidade está engajada com ela mesma e se faz mostrar. Mas quis vir no fim do carnaval, para também capturar a rotina – diz Sarah, que apesar de já conhecer o Rio, tenta não pré-determinar como será o filme. – Imagino uma experiência exuberante, como um sonho fantástico surreal. Mas a cidade também tem uma contradição social extremamente pesada. Enquanto falo, penso em cores: laranjas, vermelhos, verdes. E o contraponto são os cinzas, cores sujas… Os dois extremos existem no mesmo frame. É isso que eu quero conduzir, esse sonho junto com uma realidade social específica daqui.

Parte das locações e dos personagens previstos – como Caetano Veloso e “Niemeyer e suas enfermeiras” – ainda é apenas uma lista de desejos, mas ela aprendeu a ser insistente. Conseguiu permissão para a festa do Oscar, em Los Angeles, onde quis filmar “a exportação da fantasia”, em 2004. Conseguiu entrar na sala de Bill Clinton na Casa Branca, em seus últimos dias na presidência, em Washington, em 2000. Ambos os casos mostram que Sarah não escolhe aleatoriamente o momento de filmar as cidades. Ela diz que os períodos de transição são cruciais, pois revelam as estruturas de poder dos espaços – sempre presentes em seus filmes. Chegou a Pequim nas Olimpíadas de 2008, quando a capital da China se revelava com todas as contradições num evento internacional, pensado fora da sociedade chinesa. Para Sarah, a experiência do carnaval carioca será um antídoto a seu último filme.

– Penso sobre a estrutura do espetáculo, que no caso das Olimpíadas é de cima para baixo. Já um espetáculo como o carnaval não dura só naquele momento, mas o ano todo, além de ser autogerado, e não imposto de fora, mesmo que patrocinado – diz a artista na Quarta-Feira de Cinzas, o primeiro de seus dez dias no Rio, num café no Leblon. – O Brasil não está nem vivendo um momento, e sim momentos, com um modelo diferente do da China. A sensualidade, como as pessoas aproveitam seu tempo livre… São dois mundos bem distintos, com diferentes modos de se mover pelo espaço. Será um bom contraponto.

Não há nada na fala de Sarah que não carregue reflexão, influência de seus tempos de estudante de Semiótica e Filosofia Política na Universidade de Brown. Quando por sugestão de um professor, ela se inscreveu no Programa de Arte Independente do Whitney Museum, em Nova York, nunca tinha feito um trabalho de arte na via. Mas foi aceita.

– Até os 21 anos, só o que eu fazia era ler, ler, ler e ir ao cinema – conta. Eu não tinha nada para mostrar. Só ideias. Na mesma época, fiquei fascinada com o trabalho do (artista plástico) Jeff Koons, e o convenci a me dar um emprego. Ele não tinha estúdio, eu não era sua assistente. Apenas trabalhava para ele. Koons era extremamente generoso, mas também muito rigoroso. Com ele, adquiri o hábito de nunca aceitar um não e de pensar em arte de modo bem elástico.

Quando começou a pintar, Sarah aparentemente se afastou de suas leituras de Marx, Adorno, Benjamin, Gramsci. Mas só na superfície. Ela discorda dos críticos que identificam em sua pintura geométrica uma relação imediata com a arquitetura. A preocupação com o espaço é evidente em suas telas e site-specifics – ela já cobriu com suas formas entrelaçadas as paredes do Palais de Tokyo, em Paris, da Fundação Beyeler, em Basel, do Museu de Arte Moderna de Frankfurt. Mas a artista diz se interessar pela arquitetura no que ela tem de social, em como o espaço afeta a relação entre as pessoas. E chega a definir sua pintura abstrata como ideológica. Aliás não só a sua.

– A pintura é sempre ideológica, não há como fugir disso – sustenta ela, que em uma semana vai a São Paulo planejar uma mostra na galeria Fortes Vilaça para 2012. – Minha pintura diz respeito a um conjunto de interações. É sobre um entendimento de que somos parte de um sistema maior. E não falo isso de forma cínica, mas no sentido de que não há um exterior a nós, de que está tudo interligado. As telas transportam o espectador para esse sentimento de engajamento. Não gosto da evidência das mãos na pintura. Mostrar a subjetividade não é interessante, não é o que a arte deve ser.

E se a arte deve ser engajada, não é de uma maneira óbvia. Sarah vai subir o Cantagalo e o Santa Marta, mas não para documentar ou denunciar. Seus filmes não têm roteiro, e a artista quer que uma situação na cidade inspire outras – um pouco como a livre associação de ideias que ela mesmo faz, entre uma garfada e outra de mamão e manga. Entre ficção e documentário, a visualidade é o principal.

– Gosto de usar a linguagem estética do mainstream e levá-la para a arte – diz Sarah, que trabalha há 12 anos com um diretor de fotografia de publicidade, David Daniel. – Li muita coisa que acho errada ou besteira. Não acredito numa hierarquia social estática. O significado do mainstream está o tempo todo mudando. E não falo só de revoluções políticas, como agora na Líbia e no Egito, mas sobre o significado da imagem. Quando você se dá conta de que faz parte disso, tem mais controle, mais possibilidade de resistência.

“Imagino uma experiência exuberante, como um sonho fantástico, surreal. Mas a cidade também tem uma contradição social extremamente pesada.”