Harper’s Bazaar Brazil

 
 
 

Harper’s Bazaar Brasil

Março 2015

Sarah Vezes 2

Durante passagem por São Paulo, onde inaugurou duas exposições, a artista plástica Sarah Morris revela à Bazaar sua relação com as grandes metrópoles e novas maneiras de subverter o sistema.

Vivian Mocellin

Com uma mistura única de cinema verité, futurismo, abstração, geometria e uma pitada de ficção científica, a artista americana Sarah Morris apresenta duas individuais em São Paulo. Até 28 de março, a galeria White Cube exibe uma série de pinturas tendo a capital paulista como tema, enquanto a Fortes Vilaça mostra, até dia 7, uma coleção de pôsteres de produções do cinema brasileiro antigo e também o filme Rio, feito por ela em 2012. Embora partindo de processos opostos, quadros e vídeos são criados simultaneamente em uma prática que a artista chama de esquizofrênica. Faces da mesma moeda, representam o perfil psicológico e visual das cidades retratadas. Foram onze até agora, incluindo Los Angeles e Pequim.

Toda cidade é uma forma de conspiração, pensa Morris, e possui uma ideologia que ela tenta decifrar a partir de símbolos, sinais e padrões codificados tanto na arquitetura e no planejamento urbano quanto no comportamento e nas burocracias sociais. Esses códigos e padrões são transformados em coordenadas matemáticas que inspiram suas pinturas. Nunca estáticas, possuem caráter autogenerativo. Uma pintura pode gerar outra pintura, que pode gerar outra pintura. É um sistema aberto, em que tudo pode acontecer.

Em seus filmes, nenhuma cena é dirigida, pois ela não acredita que precisamos de ficção. Não há uma história acabada, mas situações simultâneas, como realidades paralelas. A artista afirma estar aberta para que qualquer coisa aconteça na frente de sua câmera. Ou até para que nada aconteça: “Mesmo que sejam apenas quatro gatos passeando na frente do escritório do prefeito do Rio. Se é isto que está acontecendo, é isso que filmarei”, diz a artista em entrevista à Bazaar. “Como o que aconteceu ontem. Aquilo não foi planejado. Você não planejou, eu não planejei.” Ela se refere às fotos que você vê nestas páginas. Inicialmente planejado para acontecer no interior da galeria White Cube, o shooting acabou se estendendo para o terraço de um prédio abandonado, na frente da galeria. Sugestão da própria artista.

A escolha das cidades retratadas ocorre também de forma aberta e quase aleatória. Foi quando estava realizando o filme Beijing, sobre as Olimpíadas de 2008, que começou a pensar no Rio como destino. Na China, o que interessava era o fenômeno do desenvolvimento arquitetônico e a apropriação do Oriente pelo Ocidente, e o Brasil, com sua história política e cultural tão diferente, pareceu um contraponto perfeito. Mas se engana quem pensa que vai encontrar em sua obra uma celebração da ideia de “paraíso tropical” que o país evoca. Embora retrate o erotismo pervasivo da capital carioca, e registre imagens icônicas, como o desfile das campeãs no Sambódromo, a artista subverte essas imagens substituindo o áudio original por um soundscape futurístico e sombrio. O mesmo acontece com Oscar Niemeyer, entrevistado por Sarah pouco antes de sua morte. É apenas sua imagem que vemos no filme. Há ainda referências a Lina Bo Bardi, Roberto Burle Marx e Oswaldo Arthur Bratke. Mas, para além da arquitetura e do planejamento urbano, objetos cotidianos, como frutas tropicais e emaranhados de fios nos postes, também informam seu trabalho. É a partir desses elementos que Morris busca entender como se forjaram as burocracias urbanas e as formas de interação social e de controle de complexas metrópoles como São Paulo.

Ela sabe que estar envolvida com a cultura mainstream é um tabu, mas considera rasas as interpretações que entendem que retratar algo significa fazer apologia. Por isso, se sente à vontade não só para usar como temática, mas também para se apropriar e ressignificar estratégias comerciais das indústrias de entretenimento e design. Afirma que seu papel como artista é se posicionar no centro desse sistema, pois é o que permite o engajamento crítico: “Não estou dizendo que exista apenas uma realidade, mas acho que na resistência, discussão, debate, diálogo, tudo vem de dentro”. Assim, Sarah cria um espaço, que não é nem totalmente ficção, nem totalmente realidade, não está situado nem no passado ou no futuro, e que é, portanto, um convite para repensar o lugar comum, a cidade, a realidade social, o que estes têm sido e o que podem vir a ser. O próximo destino? Algum lugar do Oriente Médio… Não poderia ser um contraponto melhor ao Brasil.