Brazilian Vogue


 
 
 

Vogue Brasil

Setembro de 2013

Para gringo ver

A artista inglesa Sarah Morris mostra sua visão do Rio de Janeiro em Bye Bye Brazil, exposição que ocupa a White Cube, em Londres.

Rosane Ribeiro

Foi amor a primeira vista. Há 18 anos, Sarah Morris conheceu o Rio de Janeiro e subiu o morro da Rocinha. Ela acompanhava a amiga Márcia Fortes (hoje sócia da galeria paulistana Fortes Vilaça), na campanha do então candidato a prefeitura do Rio, Márcio Fortes, pai da galerista. “Eram muitos homens armados ao redor do nosso carro”, lembra a artista inglesa, sobre a proteção em torno do político. “Não entendia o que eles falavam, mas sentia a tensão no ar.”

Apesar do episódio nada prazeroso, a cidade a fascinou desde o primeiro encontro e é o tema de Bye Bye Brazil. A mostra, que reúne uma série de pinturas e um filme, ocupa a White Cube de Bermondsey (Londres) até o fim deste mês. A exibição toma emprestado o nome do filme de Cacá Diegues, de 1979, inspirado nas mudanças políticas e culturais da época. “O Brasil está mais uma vez à beira de uma nova fase. Não apenas social e econômica, mas também na maneira de pensar, de ser brasileiro. Por isso, senti uma conexão com o longa e quis que a exposição fosse uma espécie de continuação dele”, conta.

Há quase 20 anos, Sarah vem dirigindo filmes que têm cidades como temas, retratando sua arquitetura, seus costumes, protagonistas e moradores. Nova York (1998) foi a primeira cidade escolhida pela inglesa, seguida por Las Vegas (1999), Washington (2000, no qual regirou os últimos dias de Clinton no poder), Miami (2002), Los Angeles (2004), Pequim (2008) e Chicago (2011).

Durante duas semanas, a artista percorreu o Rio e acumulou mais de 50 horas de filmagem. O resultado são 88 minutos que retratam a identidade plural da capital fluminense. Sarah Filmou clássicos da vida carioca – o Fla x Flu, os vendedores de biscoito Globo na praia de Ipanema, a escolas campeãs do Carnaval da Marquês de Sapucaí -, esteve em endereços quase antagônicos (das salas de cirurgia plástica ao baile funk na Cidade de Deus) e registrou moradores ilustres: Danuza Leão em seu apartamento; Camila Pitanga e Lázaro Ramos no Projac; e Oscar Niemeyer em seu escritório.

O trabalho do mais famoso arquiteto brasileiro, assim como os de Lina Bo Bardi e Burle Marx, foi para o lado artista plástico de Sarah inspiração para a série de pinturas de geometria abstrata. “Lina e Niemeyer são inspirações constantes. Não apenas pela obra, mas também por suas vidas. Quando entrevistei Niemeyer no Rio, aos 104 anos, ele ainda tinha aula de filosofia às quintas-feiras, você acredita?” São telas batizadas com nomes como Sambódromo da Marquês de Sapucaí ou Globo, de cores vibrantes que lembram os guarda-sóis nas praias e as frutas das feiras e casas de suco. Na obra da inglesa, filmes e pinturas estão conectados. “Os quadros são para mim diagramas de como navegar pela arquitetura e pelos espaços das cidades. É a metáfora de um mapa.”

Além do cinema e das artes plásticas, a moda também adora Morris. Em Maio de 2000, a Vogue britânica convidou sete artistas para retratar Kate Moss. Sarah fotografou a top para a capa da edição, numa referência à imagem de Atlantic Years, coletânea do Roxy Music, de 1983. Mais recentemente, foi convidada pelo presidente do grupo LVMH, Bernard Arnault, para dirigir um filme sobre a nova Louis Vuitton Foundation for Creation, um parque em Paris que abrigará o museu patrocinado pela grife, que terá projeto de Frank Gehry e inauguração prevista para 2014. Ela não adianta nenhum detalhe, mas promete que vai dar o que falar.